
Das coisas que levamos na bagagem, fazer teatro é uma das que mais nos encanta. Iniciamos um curso para principiantes no início de 2016 pelo grupo Porto Cênico, de Itajaí/SC.
Foi a Carina quem tomou a iniciativa de nos matricular. Confesso que tinha certa resistência em fazer o curso, mas acabei concordando em, ao menos, experimentar.
Sou bastante introvertido, mas não tenho grandes problemas com palco, ou plateia. Quando no ensino fundamental, sempre fui estimulado a participar das apresentações artísticas que o colégio promovia e acredito que isso tenha me encorajado. Apesar disso, sempre tive dificuldades de entrosamento com pessoas que não tenho muita intimidade. Sabia que o curso ajudaria de alguma forma no desenvolvimento das relações interpessoais.
Nossa turma era bem diversificada, formada por alunos de quatorze a sessenta anos. Entre outras técnicas, as aulas eram compostas de atividades que estimulavam a concentração, imaginação, senso coletivo. O conteúdo nos fez despertar para coisas simples e já esquecidas. Percebemos que a rotina nos fez desaprender a brincar e, quando adultos, já não nos permitimos errar. Mas tudo tem um propósito, e lá a “brincadeira” era levada a sério.
Ao final do curso realizamos a montagem de um espetáculo. Nossa escolha foi “A farsa da boa Preguiça” de Ariano Suassuna. Obra composta por vários personagens e muito texto. Um desafio e tanto!
Nossa única apresentação ocorreu numa sexta-feira, com casa lotada (boa parte por familiares, claro!). Tratando-se de uma turma iniciante, podemos dizer que foi um sucesso. O frio na barriga, o calor do público, a sensação de dever cumprido ao ouvir aos aplausos… Uma experiência maravilhosa, que nos deixou com vontade de repetir a dose e poder fazer ainda melhor.
A maioria dos alunos optou por continuar estudando teatro e seguimos juntos por mais um semestre de curso. Durante a pausa de um mês, já sentia falta das nossas reuniões e o corpo praticamente seguia sozinho em direção ao nosso ponto de encontro.
Mais perto desse universo, passamos a enxergar o quanto a cidade é repleta de atrações culturais. Opções para todos os gostos, idades e bolsos e que, infelizmente, não atingem ou não interessam boa parte da população.
Formamos vínculos de amizade que se estenderam para além das paredes do auditório e fortaleceram o grupo. Continuamos o processo de aprendizagem e nos preparamos para uma mini-temporada que contemplaria o encerramento daquele semestre.

O espetáculo “Os Cínicos”, foi baseado em quatro contos de Nelson Rodrigues: “A dama do lotação”, “Sem caráter”, “O Marido Sanguinário” e “O Canalha”. Nesta peça, histórias que envolvem o cinismo, o adultério e a hipocrisia levantam discussões sobre moral, desejo e o pecado, num misto de drama e comédia contemporânea.
A temporada nos proporcionou uma nova experiência. A cada apresentação nos sentíamos mais maduros, mas não menos ansiosos. O público de uma noite, era completamente diferente do de outra, uns mais contidos, outros mais abertos, expressavam reações diferentes e em diferentes momentos.
Criamos um carinho por este trabalho e dele surgiu um Grupo de Estudos Teatrais – GET Cais, do Porto Cênico. A proposta tem sido continuar os estudos através de oficinas, cursos e montagens de espetáculos. Seguimos trabalhando com “Os Cínicos” em 2017, já com algumas mudanças significativas que trarão um ar de novidade para a peça.
A experiência superou minhas expectativas. Me fez sair da caixinha, trouxe novas amizades e uma nova percepção de coletividade. O que era para ser só um experimento, virou uma paixão.

Elenco do espetáculo “A farsa da boa preguiça” 
Elenco do espetáculo “Os Cínicos”
Quem tiver interesse em conhecer melhor o trabalho do Grupo Porto Cênico, pode acessar a página no Facebook ou website.