Trilha do Rio do Boi

Para inaugurar a sessão de relatos no blog, escolhemos nossa aventura mais recente, realizada no mês de dezembro: a Trilha do Rio do Boi, aos pés do Cânion Itaimbezinho, no Parque Nacional Aparados da Serra. O parque localiza-se no município de Praia Grande, extremo sul de Santa Catarina.

Praia Grande é a cidade natal da Carina e onde vivem seus pais, por isso, frequentemente visitamos a cidade. Em outra oportunidade já havíamos explorado a borda do cânion, mas, por conta da correria ou comodismo, sempre prorrogamos a visita ao seu interior.

Desta vez estávamos passando alguns dias de férias. A ideia acabou surgindo durante a nossa estadia. Eram dez da noite quando ela contatou uma amiga – guia de turismo, via WhatsApp, que nos indicou o guia Leonardo, da empresa Verdes Canyons. Em poucos minutos já estávamos com o passeio agendado para a manhã do dia seguinte. Vale lembrar que o ideal é programar-se com antecedência, até porque a quantidade diária de visitantes é limitada. Para realizar a trilha é obrigatório o acompanhamento de guia credenciado pelo Parque.

Levantamos cedinho e fomos ao supermercado comprar suprimentos. Fizemos alguns sanduíches, abastecemos a mochila com frutas, água, protetor solar, repelente, toalha, capa de chuva (sempre tenho no carro) e documento de identificação. Para a trilha recomenda-se o uso de roupas e tênis confortáveis (o calçado precisa ser resistente), também fomos com roupa de banho.

PONTO DE PARTIDA

Nosso ponto de partida foi a pousada Pacatatu, no cento da cidade. Lá mesmo efetuamos o pagamento. Custo de R$ 85,00 por pessoa, com acompanhamento de guia, ingresso ao parque, seguro contra acidentes e caneleiras para proteção individual. O pagamento também pode ser feito com cartão de débito ou crédito.

Chegamos ao parque por volta das 9:30h. Vestimos as caneleiras e após algumas instruções demos início à caminhada. Boa parte do percurso é feito em meio a mata. A propósito, o intuito das caneleiras, não são proteger de batidas, mas de possíveis picadas de cobra – encontramos duas pelo caminho, uma delas peçonhenta. Quando avistadas, os guias costumam fazer uma pequena pilha de pedras próximo ao local para sinalizar os demais.

Seguimos por este caminho por pouco mais de uma hora. O trajeto que era utilizado por antigos moradores é íngreme e exige bom condicionamento físico. No caminho é possível ver algumas ruínas como: muretas de pedra, peças de antigos moedores de cana-de-açúcar e plantações de bambu, que serviam para proteger as casas do vento minuano, típico na região. Em meio a mata avistamos uma casinha ainda habitada por um ermitão, que segundo o guia, de vez enquanto aparece na cidade em uma moto desgovernada a procura de suprimentos.

Naquele dia havia previsão de chuva para o período da tarde. Então, apertamos o passo para tentar chegar ao ponto final antes que o mal tempo pudesse atrapalhar. Como o rio costuma encher rápido e grande parte da trilha segue seu leito, havia o risco de ficarmos ilhados. O guia nos contou sobre um caso em que o grupo precisou aguardar o resgate até parte da noite.

PRIMEIRA PARADA

Finalmente o barulho das águas aumentou e um clarão se abriu na mata. Nossa primeira parada foi numa piscina natural. Apesar de fria, a água cristalina era convidativa à um mergulho, que foi impossível resistir. Após um lanchinho, retocamos o repelente e filtro solar para prosseguirmos. Neste ponto começaria a segunda etapa da nossa aventura.

A trilha seguia agora pela margem do Rio do Boi, num caminho bastante irregular, sobre pedras e com várias travessias – dez para ir e dez para voltar. A recomendação do guia era de atravessarmos o rio de mãos dadas, formando uma corrente e evitando pisar nas pedras maiores dentro da água, pois tendem a ser mais escorregadias por causa do limo.

O ritmo era intenso e em alguns momentos chegava a ficar tonto de olhar para o chão. Para escorregar, prender o pé ou pisar em falso bastava piscar os olhos. A medida que nos aproximávamos do destino, as pedras tornavam-se ainda maiores. Cada parada era valiosa – momento de respirar e apreciar a vista.

Fizemos ainda, outras breves pausas em duas das muitas cascatas que há pelo caminho. Algumas estavam praticamente secas, devido ao período de estiagem que a região enfrentava. Por falar no tempo, o sol que até então brilhava radiante no céu azul, começava a disputar espaço com algumas nuvens.

UMA PAISAGEM DESLUMBRANTE

Quatro horas haviam se passado desde o início da trilha, quando finalmente chegamos ao nosso destino. Um imenso vale, cercado por paredões rochosos de 700 metros de altura, escalados pelo verde da mata. Uma paisagem deslumbrante, daquelas vistas em pinturas, ou nas telas de cinema. Impossível não pensar o quanto o ser humano é pequeno, literalmente.

Após a contemplação, uma parada para o “almoço”. Em menos de 15 minutos, o cenário mudou completamente, nuvens carregadas escureceram o vale e antes que vestíssemos nossas capas de chuvas, uma tempestade desabou! Começamos imediatamente nosso caminho de volta.

O RETORNO

O nível do rio aumentava e a correnteza já estava mais forte. Foi ainda mais preocupante ver a quantidade de água jorrando das cachoeiras que antes estavam secas. Apesar disso, confesso que aquela adrenalina deixou o passeio ainda mais emocionante.

A chuva não dava trégua e o cansaço começava a atrapalhar. Uma das famílias que nos acompanhava no grupo, parecia não ter muita noção do risco, seguiam sempre por último, paravam a todo instante para tirar fotos e ainda queriam pausas para realizar mergulhos. No meio do trajeto, a sola do tênis de um deles descolou (daí a importância de um calçado resistente), o guia, preparado, imediatamente retirou uma fita prateada da mochila e amarrou a sola no pé do rapaz.

Quando finalmente fizemos a última travessia, a chuva cessou. Naquele ponto nossa única preocupação era sair do parque antes que escurecesse. Como havia tempo suficiente, nos despedimos com um mergulho revigorante no rio.

Com as energias recarregadas, continuamos o trajeto em meio a mata, desta vez com muita lama, por conta da chuva. Chegamos ao fim da trilha por volta das 17:00h, dominados pelo cansaço, mas maravilhados. Na bagagem, uma incrível sensação de vitória.

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